Toda semana atendo mulheres que chegam no consultório com a mesma história. Funcionavam bem, às vezes muito bem. Trabalho, filhos, rotina sob controle. E então, em algum momento entre os 40 e os 55 anos, algo mudou. O foco foi embora. A memória começou a falhar. O cansaço não passa mais com descanso.
Receberam antidepressivo. Remédio para pressão. Mais um encaminhamento. Cada sintoma tratado separado, sem ninguém parar pra perguntar: por que uma mulher que funcionava bem assim de repente não consegue mais?
É essa pergunta que me interessa. E a resposta, quase sempre, passa por dois lugares que raramente são investigados juntos: TDAH e estrogênio.
O estrogênio faz muito mais do que você imagina
A maioria das pessoas pensa no estrogênio como hormônio reprodutivo. E é. Mas ele também regula a produção de dopamina no cérebro, e é aqui que a história fica interessante.
Dopamina é o neurotransmissor que controla foco, memória de trabalho e regulação emocional. No cérebro com TDAH, a dopamina já funciona abaixo do ideal desde sempre. O que muitas mulheres não sabem é que o estrogênio estava compensando esse déficit, em silêncio, durante décadas.
Barth et al. (Frontiers in Neuroscience, 2015) documentaram exatamente como os hormônios sexuais sustentam esses sistemas no cérebro adulto feminino. Não é uma relação periférica. É estrutural.
Quando o estrogênio começa a cair, esse suporte vai junto. E o cérebro com TDAH, que já operava no limite, perde o andaime que o sustentava sem nunca ter sabido que ele existia.
Por que a perimenopausa é o momento em que tudo desmorona
Na perimenopausa, estrogênio e progesterona podem cair até 65% (NICE NG23). Isso bate direto nas funções executivas: a capacidade de planejar, organizar, começar tarefas e regular emoções. Para qualquer mulher já é um desafio. Para quem tem TDAH, é uma falência em cascata.
Camara, Padoin e Bolea (Archives of Women’s Mental Health, 2022) revisaram essa relação em detalhe e chegaram a uma conclusão importante: a perimenopausa é o período de maior vulnerabilidade neurológica para mulheres com TDAH em toda a vida adulta.
E tem um detalhe que poucos consideram: a perimenopausa pode começar aos 35 ou 40 anos, muito antes do ciclo menstrual terminar. Mulheres que percebem uma piora do TDAH nessa faixa de idade raramente associam ao estrogênio. Mas deveriam.
Décadas funcionando bem. E de repente, não.
Grande parte das mulheres que atendo nessa fase nunca teve diagnóstico de TDAH. Passaram a vida inteira compensando: listas, rotinas rígidas, sistemas de organização que escondiam o caos interno do mundo e delas mesmas.
O que o mundo via como competência era, na prática, sobrevivência neurológica. O ADHD Foundation e o Royal College of Psychiatrists documentam que mulheres com TDAH gastam muito mais esforço cognitivo do que pares neurotípicos para chegar ao mesmo resultado. Esse esforço é invisível para todo mundo, inclusive pra elas.
Quando o estrogênio cai, esse esforço deixa de ser sustentável. A máscara não cai por fraqueza. Cai porque a base biológica que a sustentava foi embora.
Os números que mostram a dimensão do problema
Uma pesquisa com 1.500 mulheres com TDAH trouxe dados que me impactam até hoje: 94% relataram piora dos sintomas na perimenopausa. 70% descreveram esse como o período mais difícil de toda a vida.
E além dos sintomas cognitivos e emocionais, a queda do estrogênio afeta o corpo inteiro de formas que raramente são conectadas. Pressão arterial que sobe sem explicação aparente, com risco real de AVC (NICE NG136). Perda acelerada de densidade óssea (Royal Osteoporosis Society). Deterioração das gengivas e fraturas dentárias (British Dental Journal). Aversão ao toque, que acontece porque o estrogênio também atua nos receptores da pele (Verdier-Sévrain e Bonté, International Journal of Dermatology, 2007).
A causa é a mesma em todos os casos. O que muda é o especialista olhando para aquele pedaço específico, sem ver a mulher inteira.
O que faço quando atendo essas mulheres
A primeira coisa que muda na minha abordagem é tratar TDAH e menopausa como uma crise única de saúde cerebral, não como dois problemas separados que por coincidência aparecem ao mesmo tempo.
Na prática isso significa avaliar reposição hormonal como suporte neurológico, não só alívio de sintomas físicos. Significa revisar a medicação para TDAH, porque a queda do estrogênio muda como o tratamento responde. Significa não tratar humor, pressão ou ansiedade nessa fase sem mapear o quadro hormonal primeiro. E significa tratar sono, proteína e redução de sobrecarga sensorial como parte da clínica, não como sugestão de hábito saudável.
Não é quem você se tornou. É o que está acontecendo com você.
A mulher que funcionava bem não desapareceu. Ela está sob uma crise biológica que ninguém nomeou, e que foi interpretada como fraqueza quando tem causa, diagnóstico e solução.
Com a investigação certa e o suporte hormonal adequado, ela volta. Não como uma versão piorada de si mesma. Como ela mesma.
Se você se reconheceu aqui, ou está acompanhando alguém que está passando por isso, o próximo passo é uma avaliação individualizada. TDAH feminino e saúde hormonal precisam ser investigados juntos. É o que muda o resultado.
Referências: Barth C et al., Frontiers in Neuroscience (2015) · Camara B et al., Archives of Women’s Mental Health (2022) · Verdier-Sévrain S e Bonté F, International Journal of Dermatology (2007) · NICE NG23 · NICE NG136 · British Menopause Society · Royal Osteoporosis Society · British Dental Journal · ADHD Foundation · Royal College of Psychiatrists
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Diogo Tortorello
Luz, Ritmo e Consciência